terça-feira, 27 de agosto de 2013

Entrevista a Gonçalo Cadilhe

terça-feira, 27 de agosto de 2013
Abrimos a rubrica "Entrevistas" com o escritor e guia de viagens Gonçalo Cadilhe
Em primeiro lugar quero agradecer ao Gonçalo pela simpatia e disponibilidade com que acolheu o pedido de entrevista.
É sem duvida nenhuma um nome de referência na literatura de viagens, com uma vasta obra já publicada.
Na sua escrita, Gonçalo Cadilhe consegue envolver-nos de tal forma que a nossa imaginação é transportada para os locais descritos.

Fiquem com a conhecer um bocadinho mais deste escritor:

HT: Como é que um licenciado em Gestão de Empresas começa a escrever sobre viagens? 
GC: Não creio que os escritores de viagens tenham origem num campo académico específico. Podem vir da área de Gestão ou da Medicina ou da Mecânica, ou da escola da rua (risos). Sempre tive gosto em escrever, sempre tive curiosidade em ver para lá do horizonte. Consegui conjugar essas duas aptidões para financiar a vida que tenho levado, voilá! 

HT: Faz isto há 20 anos. Hoje é uma coisa perfeitamente normal, mas imagino que na altura fosse um bocadinho estranho. Como foi a reacção das pessoas a este seu tipo de vida?
GC: Estranharam (risos). Bom, na realidade foi tudo muito gradual, comecei por publicar uma reportagem de tantos em tantos meses, depois fui ficando com alguma notoriedade no Expresso, depois veio o projecto da volta ao mundo sem aviões (publicado no livro “Planisfério Pessoal”) e depois ainda os documentários para a RTP. Creio que sempre transmiti profissionalismo e responsabilidade no meu trabalho, então as pessoas, o público, assumiram que não era um tipo de vida “estranho” mas sim uma profissão “estranha”.

HT: Qual a viagem que o marcou mais?
GC: Costumo responder “a próxima”, o que diz muito sobre as minhas expectativas, e também sobre a forma como, depois de andar há mais de metade da minha vida a viajar, relativizo a experiência “viagem”. Quero dizer que viajar é para mim uma actividade “normal”, e profissional, logo rotineira, e como tal, difícil falar em viagens marcantes. Teria que recuar à infância, aos escuteiros, aos primeiros acampamentos em busca de ondas de surf, para sentir que viajar deixou marcas. Agora, em termos literários, em termos de sucesso profissional como escritor de viagens, até hoje os projectos mais conseguidos e portanto mais marcantes, terão sido os livros “Planisfério Pessoal” (uma volta ao mundo sem aviões), o “África Acima” (o continente de sul a norte em meios de fortuna) e o “Nos Passos de Magalhães” (biografia itinerante do navegador).

HT: Porque é que prefere viajar sozinho?
GC: Certamente é mais difícil ir ao encontro do Outro quando partimos em companhia. Como tenho dito já em outras ocasiões, quem parte sozinho abre-se ao mundo, quem vai em grupo fecha-se no grupo. Mas na realidade nem sempre viajo sozinho, por exemplo os documentários de viagem que tenho feito implicam viajar com um cameraman e por vezes mais membros da equipe.

HT: Como é que lida com as saudades?
GC:
Sou a favor (risos)… Agora a sério, não há fórmula. Cada viagem tem as suas distâncias,  os seus tempos de ausência. É um daqueles problemas universais, sentido por todos os hominídeos e mamíferos afins, e transversal a todas as épocas e culturas. Só mesmo por ignorância ou soberbia alguém pode pensar que “saudade” é uma palavra e um sentimento exclusivamente português e sem tradução ou paralelismo… 

HT: Imagino que a preparação das viagens seja um elemento fundamental no sucesso das mesmas. Leva muito tempo a preparar? Costuma fazer investigação sobre os locais que vai visitar?
GC: Cada caso é um caso. Por exemplo, as viagens que organizo e acompanho para a agencia Pinto Lopes, têm muita preparação, e muita prospecção. No caso oposto, a viagem por África acima que deu origem ao livro homónimo, não teve preparação nenhuma. Cada dia era uma decisão

HT: Alguma vez teve medo durante uma viagem?
GC: Muito medo dessa viagem que é a vida. De tudo um pouco, desde a falta da saúde, ao sofrimento emocional ou físico, à falta de segurança rodoviária, à incompetência dos que nos governam etc… enfim, creio que a única coisa de que não tenho medo é da conclusão dessa viagem, a minha própria morte. 

HT: Até quando pensa ter esta vida de viajante?
GC: Enquanto for fluindo naturalmente com os meus interesses, as minhas capacidades e a disponibilidade do mercado (os leitores, os telespectadores) para continuar a seguir o meu trabalho. 

HT: Que conselhos daria a alguém que esteja a iniciar a vida de viajante?
GC: Bom, há muitos conselhos que deixei sistematizados no manual “O Mundo É Fácil”, esses não vou repetir. O conselho que agora me ocorre é o de não se deixar cair no logro da viagem como sinónimo de aventura e exploração, viajar é um comportamento de massa, milhões de pessoas andam a viajar pelo mundo de mochila às costas, de forma independente, os guias de viagem são best-sellers que vendem milhões de cópias, enfim, está tudo explicado e desvendado com um click no Google. O conselho é esse: de ajustar as expectativas às realidades do turismo mundial.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Histórias Transmitidas © 2014