terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Entrevista a Ana Casaca

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Esta semana a nossa convidada é Ana Casaca, guionista e autora dos livros "A Vontade de Regresso" e "Todas as Palavras de Amor".
Agradeço à Ana a simpatia e disponibilidade com que respondeu às minhas perguntas.

HT: A Ana é licenciada em direito, mas decidiu dedicar-se à escrita. Como surgiu este gosto por escrever? 
Ana Casaca: O Direito não é, de todo, incompatível com a escrita. Aproveitei muitas aulas de Direito Comercial e de Direito Processual Civil para me dedicar à escrita de pequenas histórias, abstraindo-me assim de um curso para o qual não tinha a menor vocação. Muitas foram as ocasiões da minha vida em que a escrita me salvou de males maiores, outras tantas em que me redimiu de erros que julgava graves. Devo-lhe muito e sei que um dia ainda hão-de descobrir-lhe, e à leitura também, características terapêuticas.

HT: Imagino que, além da paixão pela escrita, também goste de ler. Quais os seus escritores de referência?
Ana Casaca: Da lista das perguntas difíceis esta vem no topo, pois falar de uns escritores em detrimento de outros acaba por ser sempre tremendamente injusto. E depois tenho os meus amores inconfessáveis, que me acompanharam em fases onde era necessário tê-los na minha vida, mas que hoje não fazem sentido nenhum.
No entanto, acho que posso afirmar, com a segurança dos que não têm certezas absolutas, que os escritores que me mantiveram cativa com mais intensidade na adolescência e anos subsequentes foram: Júlio Dinis, Jane Austen,  Daphne du Maurier (por causa dos seus livros, viajei até à Cornualha)  e o meu amado Eça de Queiroz. Depois veio Somerset Maugham,  Henry James, Edith Wharton, Stefan Zweig e tantos, mas tantos outros que me acompanharam e fizeram com que viajasse em mais do que um sentido, sem mover um único músculo. Num tom mais satírico e descontraído,  Tom Sharpe e David Lodge também me marcaram bastante.  Nos dias de hoje, o escritor que mais encanto me trouxe ao descobri-lo foi, sem sombra de dúvida, Carlos Ruiz Zafón. Ainda não chegou um encantamento maior, desde que conheci a sua escrita, mas aguardo, sem perder a esperança.

HT: Escreveu o seu primeiro livro, “A Vontade de Regresso”, em 2002. O que mudou na sua vida depois dessa publicação?
Ana Casaca: Em termos profissionais mantive-me sempre ligada à escrita, nunca me desviando daquilo que me era importante.  A publicação do meu primeiro livro fez com que acreditasse um pouco mais em mim própria, aprendendo que as coisas boas não aconteciam apenas aos outros.

HT: Li algures que este último livro, “Todas as Palavras de Amor”, foi inspirado numa história da vida real. Quer contar-nos?
Ana Casaca: Durante alguns anos recebi, por engano, postais dos quatro cantos do mundo. O endereço era o meu, mas o destinatário era alguém que desconhecia. A ideia para esta história começou, então, a tomar forma dentro de mim: E se houvesse alguém, numa aldeia remota do nosso país, que recebesse, por engano, as palavras de outra pessoa e se essas palavras tivessem o poder de modificar a sua vida? E se esse alguém que recebesse essas cartas, por engano, fosse um padre? Teriam as palavras o poder, como eu acredito que têm, de transformar uma vida inteira, ou, no caso da história, duas vidas?

HT: Além dos livros, também escreve guiões. Como funciona o processo de escrita: tem um horário pré-definido ou escreve quando tem inspiração?
Ana Casaca: Desde que fui mãe e, trabalhando em casa, deixei de poder depender apenas dos momentos de inspiração. Escrever apenas quando surgem rasgos de inspiração, pura e simplesmente, passou a ser uma utopia para mim. Por isso, escrevo quando tenho que o fazer e, regra geral, faço-o sempre. Já escrevi com o meu filho pendurado no meu colo, com a minha filha, acometida de viroses sazonais, a pedir-me atenção. Já escrevi no carro, na mesa da cozinha, de pernas cruzadas, no chão, enquanto decorre uma qualquer construção de Lego, que exige a minha perícia em engenharia. O que não quer dizer, de todo, que devote menos dignidade ao momento da escrita, muito pelo contrário. O que acontece é que aprendi a blindar-me e a prosseguir, independentemente do resto do mundo. Pois, na maior parte das vezes, o resto do mundo não quer saber dos meus momentos de inspiração.

HT: Para terminar, já está a trabalhar noutra história? Se sim, quer levantar-nos uma pontinha do véu?
Ana Casaca: Terminei, há pouco tempo, mais uma história, que já está nas mãos da minha editora - Guerra e Paz - e que será transformada em livro ainda em 2014. É também inspirada em alguém bem real: Uma amiga que perdi e que deixou um imenso vazio em todos aqueles que se cruzaram com ela. Um vazio que só consegui preencher escrevendo, ou escrevendo-lhe…

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