quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Entrevista a Rute da Silva Correia

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Hoje ficamos a conhecer um bocadinho mais de Rute da Silva Correia, autora do livro "O Ano em que Não ia Haver Verão". Eu confesso que ainda não li o livro, mas depois desta entrevista fiquei com imensa vontade. Será certamente um dos próximos.
Muito Obrigada à Rute pela entrevista.

HT: Para começar, uma pergunta que é um cliché nas nossas entrevistas: Como surgiu o gosto pela escrita?
Rute da Silva Correia: Sempre gostei de escrever, não me lembro de mim sem gostar de ler e escrever. Deve ter nascido comigo porque quando me começaram a ensinar no colégio, eu já sabia. Sempre tive muita
facilidade em escrever. Pequenas histórias, diálogos, cartas... Tive amigos por correspondência muito antes de haver o facebook. Acho que, quando se escreve, tudo é escrita, desde o sms até ao romance. Também leio muito, leio de tudo, mas já li mais entusiasmada do que ultimamente.
Antes de escrever "O ano em que não ia haver verão" andava um pouco como dizia o David Mourão-Ferreira quando escreveu "Um Amor Feliz": queria ler um livro que ainda ninguém escreveu, precisava de escrever a história de um amor feliz. Mas os amores felizes não têm história.

HT: Acaba de lançar um romance (O Ano Em Que Não Ia Haver Verão), mas já tinha escrito um outro livro (A Menina da Rádio). Qual dos dois géneros lhe deu mais prazer escrever?
Rute da Silva Correia: Já tinha escrito dois livros. "O Ano em que não ia haver verão" é o meu terceiro livro, o segundo a ser publicado e o meu primeiro romance. Já lhe chamaram um livro "urbano" e é verdade. A história passa-se em Lisboa, hoje, com ambientes que eu conheço bem. Isto é diferente de escrever sobre outras pessoas, que viveram outros tempos. Mesmo se tive a oportunidade de biografar pessoas de quem gosto muito. Isso é uma condição necessária para mim, para o meu trabalho, só consigo trabalhar apaixonadamente. Por isso, é difícil dizer qual dos géneros me deu mais prazer. Eu gosto muito da investigação, não descanso enquanto não sei tudo sobre um determinado assunto, desde que me interesse. Por outro lado, há o prazer da escrita, em qualquer forma. Mas quando escrevemos uma biografia existe uma responsabilidade diferente, um rigor que não é tão importante na escrita de ficção. O romance é o lugar da incerteza. Não me parece que seja necessário grande realismo numa narrativa de ficção. As coisas muito
realistas aborrecem-me. Num romance, o rigor deve concentrar-se sobretudo no trabalho da escrita. A escrita tem de ser perfeita. Neste sentido passa-se, na ficção, o mesmo que na poesia. Também o romance é uma escrita de "si". Costumo dizer que é impossível escrever bem sobre o que não se conhece ou nunca se sentiu. A natureza humana é mesmo assim, nós somos feitos de simpatias e de estados de alma. Mas na projecção das paixões é difícil haver rigor; hoje somos uma coisa, amanhã seremos outra. É para isso que servem as personagens de uma história, todas elas representam uma ideia, todas elas falam desde o coração do autor.
Neste livro, há imensas personagens, parece um romance russo. Numa biografia, somos só nós e aquela pessoa.

HT: Para quem ainda não leu, quer falar-nos um pouco deste seu romance?
Rute da Silva Correia: "O ano em que não ia haver verão" começou por ser uma série de pequenas histórias, até eu me dar conta de que os amores de Gizela Espinoza e Santiago eram transversais a todas elas. Foi assim que nasceu uma narrativa mais articulada. É um romance moderno e urbano, um pouco irónico, com movimento porque tem muitas personagens a intervir. O enredo é simples: os dois amantes sabem um segredo que pode explicar a morte misteriosa de uma figura conhecida da cena lisboeta. Mas há quem esteja também interessado nesse segredo. No fundo, é uma história de amor com gente a mais, cheia de ironias do destino. Foi um livro escrito a rir, da primeira palavra até à última. Talvez por isso o resultado seja muito honesto. Acho que é fundamental sabermos rir de nós e dos outros, as minhas personagens estão sempre a rir, o meu narrador é muito politicamente incorrecto... Espero que os leitores se identifiquem com elas, há um momento em que o narrador diz que as semelhanças entre realidade e ficção raramente são coincidência.
Muito mais podia ser dito sobre o livro mas quero esperar pelas leituras. Um livro só acontece nos leitores.

HT: Como funciona o processo de escrita? Tem horários específicos para escrever ou escreve
quando tem inspiração?
Rute da Silva Correia: Tenho sempre horários relativamente alternativos porque me deito tarde e acordo tarde. De resto, depende do trabalho. Se é um trabalho de investigação, obedece um pouco ao horário das bibliotecas, dos arquivos... Mas quando estou a desenvolver uma história, a escrita flui conforme a inspiração, muitas vezes nas horas e ocasiões mais insuspeitas. É normal levantar-me a meio da noite com uma ideia óptima que depois, quando vou ler, não era nada de especial. Às vezes nem consigo perceber qual era a ideia. Sobretudo, são os diálogos que mais me atormentam. É frequente sair da cama, ou ter de voltar para casa a correr, porque duas personagens estão a ter uma conversa interessantíssima na minha cabeça. Isso acontece-me muito. Mas quando se trata de trabalhar a escrita, rever o texto, é tudo mais fácil de controlar.
Também já tenho saído da cama por causa de uma vírgula, mas o trabalho da escrita, de um modo geral, exige mais concentração que paixão. Não costumo ter a famosa "angústia da página em branco". Se não me ocorre nada para escrever há sempre o trabalho da escrita, que consome imenso tempo. Num romance de centenas de páginas é uma obra faraónica.

HT: O processo de edição foi fácil?
Rute da Silva Correia: Sim, o meu editor gostou da ideia de eu escrever um romance. Ao princípio, estávamos alinhados porque eu disse-lhe que andava a escrever um romance sobre Lisboa nos dias de hoje, e ele queria um livro moderno, optimista, com cenas de noite e sexo... O problema era que as minhas personagens são um bocadinho anacrónicas. Entretanto, houve um momento em que o texto estava a ficar muito elíptico, precisei de me lembrar que estava a escrever para ser lida. Enfim, todo este processo demorou alguns meses, talvez cerca de meio ano, até o resultado ter agradado aos dois. Cada vez mais, a edição não é um processo fácil. O livro é um produto comercial mas o autor é um artista, são dois planetas completamente diferentes a tentarem criar uma coisa juntos. E não é uma coisa de consumo qualquer; um livro é para ser consumido "agora" mas vai ficar para sempre, para a posteridade. Eu sou de literatura, sou uma "nerd" dos livros, compreendo que esta ideia demore a fazer sentido mas é assim. Não existe ninguém com menos sentido comercial que eu. Felizmente, na editora fazem uns livros muito bonitos, graficamente bonitos. Foi a minha primeira escolha para "A Menina da Rádio", gostaram de mim, até agora entendemo-nos bem. Profissionalmente, sou muito burguesa, gosto de permanências.

HT: Sei que é muito cedo mas não posso deixar de perguntar: já tem em mente uma nova história?
Rute da Silva Correia: Claro que sim, imensas. Tenho muito mais para escrever.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Histórias Transmitidas © 2014