quinta-feira, 29 de maio de 2014

Entrevista a Gabriela Ruivo Trindade.

quinta-feira, 29 de maio de 2014
Hoje temos como convidada a escritora Gabriela Ruivo Trindade, vencedora do Prémio LeYa 2013.

HT: “Uma Outra Voz” é o seu primeiro livro. Como surgiu o gosto pela escrita?
Gabriela R. Trindade: O gosto pela escrita vem desde criança. Escrevi muitas estórias em criança, e continuei pela vida fora. Lembro-me de a minha professora nos ler as “Aventuras de João sem Medo”,  do José Gomes Ferreira, durante a 3ª ou 4ª classe, e acho que foi a ouvi-lo que senti vontade de inventar estórias. É curioso, porque esse livro é denominado de “panfleto mágico em forma de romance”, e eu acho que de facto tem um poder mágico qualquer de nos despertar a imaginação. 

HT: A personagem principal deste livro é inspirada num familiar seu.  Quais os motivos que a levaram a escolhê-lo como protagonista?
Gabriela R. Trindade: O que realmente me fascinou foi o que não conheço sobre ele. Eu sempre ouvi falar muito dele, durante a infância; e depois mais tarde, e também agora, quando me propus escrever o livro. A minha família partilhou muitas histórias sobre ele no blogue. E então, a dada altura, comecei a perceber que muitas dessas histórias não passam de estórias, isto é, são também elas ficções. Foi essa sensação que me trouxe a ideia para este livro: a de que não é possível conhecer a realidade (neste caso uma pessoa); ou dito de outra forma:  o modo como a realidade nos chega, como a percepcionamos, como a integramos na nossa realidade interna. Porque a única realidade que existe é aquela que está dentro de cada um de nós, ou seja, não há uma realidade externa, há antes uma multiplicidade de realidades internas que interagem, e dessa interacção nascem outras realidades, que no fundo são criações, são ficções nossas. E este é o objectivo central do livro, o de dar a conhecer essas diferentes realidades, olhares, vozes. O livro não tem um enredo linear nem pretende ser a história de vida daquele homem (a personagem que criei a partir do tio-avô da minha avó); a estória realmente anda à volta desta personagem, pode dizer-se que é ele o centro, mas é um centro que foi deslocado do centro; é um centro dinâmico, que ora está perto de nós ora está distante; às vezes nem se ouve falar dele. Um centro que acaba por ser remetido para um canto, porque o que é afinal central são as vozes das cinco personagens, as vozes dos seus pensamentos, devaneios, sonhos, amores, desilusões, dores. Isso é que acaba por ser a carne, o cerne do livro. Portanto, há todo este movimento, que nos faz mudar constantemente de perspectiva e, consequentemente, obter diferentes olhares, diferentes pontos de vista, da realidade. E perguntarmo-nos, onde estamos nós, onde está o nosso centro, e onde está ela, a realidade.

HT: O livro, através das suas cinco personagens, retrata épocas distintas da história de Portugal. O processo de investigação histórica levou-lhe muito tempo?
Gabriela R. Trindade: Não, até porque os acontecimentos históricos são secundários no livro, são uma espécie de pano de fundo. A investigação mais demorada foi aquela que tem a ver com a história familiar e a história real de vida deste tio-avô da minha avó, mas não só: há muitas personagens que se baseiam em factos e pessoas reais. O jogo foi um pouco a criação de personagens fictícias e depois vesti-las com estes retalhos da realidade. 

HT: A Gabriela foi a primeira mulher a vencer o Prémio Leya (2013). Qual a importância desta distinção? Que mudanças lhe trouxe?
Gabriela R. Trindade: A importância prende-se com o reconhecimento do valor do que escrevo, e com a possibilidade de o ver publicado. Senti-me muito honrada com esta distinção também por os membros do júri serem todos eles pessoas de tão grande mérito literário.

HT: Presumo que goste de ler. Em caso afirmativo, quais os seus escritores de referência?
Gabriela R. Trindade: Grandes referências são José Gomes Ferreira, como não podia deixar de ser, Mia Couto, Jorge Amado, José Eduardo Agualusa, Isabel Allende.

HT: Para terminar, já tem planos para outro livro?
Gabriela R. Trindade: Ainda não.

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