quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Entrevista a Maria de Vasconcelos

quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Esta semana a nossa convidada é Maria de Vasconcelos, mais conhecida pelo seu projecto "As Canções da Maria".
Recentemente publicou o livro "O Dia em que Sobrevivi", que relata um problema de saúde que teve em 2009.
Vamos ficar a conhecer um bocadinho mais da Maria de Vasconcelos, a quem agradeço mais uma vez a simpatia e disponibilidade com que respondeu às minhas perguntas.

HT: A Maria acabou de publicar um livro fruto de uma experiência quase morte que teve. Quer falar-nos um bocadinho sobre isso?
Maria de Vasconcelos: Foi o pior momento que vivi e não foi o último por um triz. 
Não vi túnel, nem luzes ao fundo, nem a minha vida em retrospectiva, logo este relato não conta nada do que se possa eventualmente passar para lá da nossa realidade vital. Conta a minha vivência imediata pois a maior parte do livro foi escrita na maca do hospital onde fui internada no seguimento da dita experiência.
Eu sou médica e terei, eventualmente, uma visão um pouco diferente de quem não é profissional de saúde. Vivem-se situações trágico-cómicas num internamento e vê-las, “do outro lado do estetoscópio”, foi uma oportunidade. Uma oportunidade que eu teria dispensado, dada a gravidade da situação, mas que, já que a vida ma deu, eu aproveitei, como consegui, a escrever, para me ajudar a “sobreviver”.

HT: Em que momento é que decidiu passar essa experiência para livro?
Maria de Vasconcelos: Quando estive hospitalizada, pedi ao meu marido que me levasse um caderno e um lápis. Tinha uma necessidade premente de distrair o medo e sublimar o caos que estava a viver. A escrita permitiu-me afastar-me do que se estava a passar e que tanto me apavorava. Não imaginava que alguma vez seria um livro. 
Quase um ano mais tarde, o Jorge Reis-Sá, meu amigo, quis ler e quis editar. Entretanto comecei a aventura de “As canções da Maria” e só agora se voltou a proporcionar publicar este meu relato. A Zita Seabra quis ler e quis editar, com a chancela da Ideia-Fixa.
Foi assim que “O dia em que sobrevivi” se tornou um livro.

HT: O que mudou na sua vida depois deste episódio?
Maria de Vasconcelos: Ouvi muitas vezes que, quando se tem uma experiência assim, se passa a dar mais valor à vida. O que mais me intrigou durante os meses que se seguiram, enquanto eu continuava muito doente foi, precisamente, a dita lição“Só se dá valor quando já não se tem.”
A minha condição é humana pelo que não sou diferente de todos os seres humanos e, no entanto, contrariamente ao que me apregoavam esta máxima não era coerente como o que se passava comigo. 
Eu sempre adorei a vida, sempre vivi com a lista das coisas que tenho, apreciando-as e valorizando-as. Não há dia em que eu não pense  na imensa boa sorte de ter a minha família, de viver onde vivo, de poder fazer as coisas que faço. Tem sido sempre assim. 
Mais, a minha mãe, enfermeira parteira, passou-me sempre a mensagem de que a saúde é o nosso primeiro bem, com saúde vai-se a todo o lado, tudo é possível, e esta convicção sempre me fez pedir, como primeiro desejo, como primeira necessidade, saúde, para mim e para os meus amores e amigos.
Nada disso mudou. Não passei a valorizar mais o que já valorizava porque, para mim, é uma qualidade absoluta, não é quantificável. 
Perguntei-me pois, muito, para que é que aquilo tudo me estava a acontecer, qual era o objectivo, o que é que a vida me estava a querer mostrar, e julgo que era devolver-me o meu bem supremo, a saúde, descobrir o que estava a acontecer e resolver o assunto. 
Parece simples e, no entanto, não foi. O que eu tinha era algo muito raro e, aparentemente, desconhecido dos médicos em Portugal. Eu sou médica e nunca tinha ouvido falar disto, nem no “House”.  Penso que, também por isso, este livro é interessante no sentido de alertar para a saúde ambiental. Quantos casos, apesar da raridade, não haverá e que não são diagnosticados como tal, pelo desconhecimento? E mesmo outros conhecidos mas nos quais não se pensa, porque estamos pouco atentos aos problemas do ambiente?
Voltando à questão, depois deste “incidente de percurso”, como lhe chamei, à falta de melhor eufemismo, decidi que iria tentar não me aborrecer com coisas que não justificam gastar energia e, estes anos passados, muitas vezes, quando começo a irritar-me com algo, pondero sempre se vale a pena. Na maior parte das vezes, não vale. 
Advogo que estamos cá para sermos felizes e agradeço ter o meu lema de volta “Em todo o fundo negro, há sempre um pontinho branco. É para ele que eu me dirijo, sempre.”

HT: Todos nós a conhecemos de  “As canções da Maria”, como é que surgiu a ideia deste livro e CD?
Maria de Vasconcelos: Desde pequena que toco guitarra e faço canções. 
Quando as minhas filhas, a Mathilde e a Manon entraram na escola e começaram a trazer-me perguntas sobre a matéria, comecei a criar canções para lhes facilitar a aprendizagem. As canções começaram a fazer grande sucesso na escola delas até que me resolvi a exportar o conceito para fora das portas da nossa casa. Foi assim que surgiu o 1º livro/CD “As canções da Maria”. Fizemos depois o DVD no mesmo ano e no ano seguinte “As canções da Maria II”. O DVD deste segundo volume está em construção. Vou seguindo a escolaridade das manas M e quero continuar, com mais temas de Língua Portuguesa, Matemática e Estudo do Meio e um especial História de Portugal.

HT: É sem duvida um fenómeno de popularidade, com uma parte pedagógica bastante elevada. Acha que é mais fácil as crianças aprenderem através da música?
Maria de Vasconcelos: É ser uma ferramenta de ensino que tornou, rapidamente, “As canções da Maria” um fenómeno de popularidade.  Não é mais um disco para as crianças mas sim uma ferramenta que ajuda a aprender, de forma lúdica, sem esforço, como se se estivesse a brincar. 
Tudo é mais fácil a cantar.  
A minha avó sempre me disse, e a minha mãe também, que "Quem canta seus males espanta". Se me for permitido o abuso do acrescento neste caso específico, "Quem canta, seus males de aprendizagem espanta".  Eu ainda sei os verbos copulativos, transitivos e intransitivos, que aprendi no 7º ano porque os aprendi a cantar, apenas para dar um exemplo. Comprovo que é verdade com as minhas filhas, com os colegas delas, com retorno de tantas crianças, dos professores, dos educadores e dos pais. 
Uma das melhores coisas que me podem dizer sobre “As canções da Maria” é, como me contam meninos e meninas que, nos testes, nas aulas, nos TPC, respondem a perguntas e têm certo, porque aprenderam com as minhas canções.  Outra fantástica é saber que há muitos professores que usam as canções a acompanhar o programa da primária e que me relatam que não só é mais divertido, como, em geral, mais eficaz, sobrando-lhes tempo para outras coisas na sala da aulas.
Nestes 2 anos e meio de “As canções da Maria” o caminho tem sido maravilhoso graças a todo este retorno e tem sido privilegiado porque é em família. A Mathilde, a Manon e o Mathias (amigo malandreco das manas M inspirado no pai delas, o Xavier) participam em tudo desta aventura. 

HT: Para terminar, bem sei que lançou este livro há uns dias, mas não posso deixar de lhe perguntar: os seus projectos futuros passam pela escrita?
Maria de Vasconcelos: Sempre escrevi e continuarei a escrever, espero. 
Logo se verá o que o futuro me trará. A vida é aqui e agora. Aqui e agora não penso nisso.

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