terça-feira, 2 de setembro de 2014

Entrevista a Carlos da Fonseca

terça-feira, 2 de setembro de 2014
Esta semana temos como convidado Carlos da Fonseca, autor do livro "Anatomia de um Amor".
Muito Obrigada ao Carlos pela entrevista.

HT: É inevitável começar com esta pergunta: Como surgiu o gosto pela escrita?
Carlos da Fonseca: O meu gosto pela escrita surgiu desde muito cedo. Aos 9 anos de idade já escrevia poesias. Ou tentava. Naturalmente que eram muito infantis e de fraca qualidade. Relendo-as hoje, contudo, considero-as demasiado profundas para uma criança dessa idade. De qualquer forma, desde que me lembro, sempre desejei ser escritor de profissão, desejo que apenas no dealbar dos 50 anos se concretizou.

HT: Estreou-se este ano na ficção com a obra “Anatomia de um Amor”, mas sei que já tinha escrito poesia. Qual destes géneros lhe dá mais prazer escrever?
Carlos da Fonseca: Digamos que existiram fases distintas, no decurso da minha vida. Em criança e na adolescência sentia-me totalmente direccionado para a poesia, e só nela me concentrava, como instrumento de expressão artística. Mesmo apesar de me dar gozo escrever textos e pequenas histórias que invariavelmente eram elogiadas nas aulas de Português, e por vezes lidas em voz alta. Tinha então a sabedoria de entender que ainda não adquirira maturidade para escrever uma obra de fundo.
Aos 20 anos realizei a minha primeira tentativa de escrever um livro, um romance passado na época da ocupação romana da Peninsula Ibérica. Passei muitos meses a coligir dados e material e iniciei mesmo a escrita dos primeiros capítulos. Nessa altura o João Aguiar lançou “A voz dos deuses”, um livro muito semelhante ao que eu pretendia escrever, e senti-me tão descoroçoado e infeliz, na insegurança daquela idade, que guardei tudo numa gaveta. Até hoje.
De qualquer forma, os vinte, vinte e poucos anos foram a idade da transição: comecei a interessar-me cada vez mais pela literatura de fundo e cada vez menos pela poesia, embora ainda me dê para escrever um ou outro poema. Depende da inspiração.

HT: Quer falar-nos um pouco deste seu último livro “Anatomia de um Amor”?
Carlos da Fonseca: É um livro que “tinha” de ser escrito! Estava cá dentro à espera de brotar, e esta foi a altura certa para o escrever. Anatomia de um amor é, em síntese, a história de um amor profundo que sobreviveu à passagem do tempo e às vicissitudes da vida. Fala de alguém que tendo já vivido algumas atribulações, conhece a verdadeira paixão e o amor total. A obra é uma elegia ao Amor, enquanto sentimento humano fundamental, talvez o mais importante e intenso sentimento que conseguimos experimentar nesta vida terrena. E pretende passar a mensagem de que, apesar de tudo aquilo que a vida entenda atirar-nos para cima, ainda assim o Amor pode e deve sobreviver. Se for puro. Se for verdadeiro.
Uma pergunta habitual que os leitores me costumam fazer é que parte da obra aconteceu realmente, e que parte é ficcional. Escolhi deliberadamente nunca responder a essa pergunta! Um pouco como um mágico que nunca revela os seus truques, sob pena destes perderem a sua magia. Prefiro deixar a cada leitor a percepção acerca da verdade ou invenção das situações descritas. Haverá quem considere tudo verdadeiro, e quem ache que é tudo inventado da primeira à última linha. E, claro, quem considere haver partes de verdade e partes fantasistas, em maior ou menor quantidade. Vou deixando que cada um pense na hipótese que mais lhe agrada.

HT: Geralmente temos a ideia que a escrita anda associada à leitura. Gosta de ler? Em caso afirmativo, quais os seus escritores de referência?
Carlos da Fonseca: Se existe alguém viciado em livros, sou eu! Desde os 6 ou 7 anos de idade que descobri a literatura, enquanto meio de viajar e ter sensações agradáveis em pensamento. Abstrair-me da realidade nem sempre agradável. Enquanto os outros miúdos jogavam futebol no recreio, eu sentava-me a ler. Daí ter cerca de 7 mil livros em casa, ter lido já cerca de 12 mil durante toda a vida. E de ter feito do mundo das Bibliotecas a minha carreira profissional. Fui Técnico de Bibliotecas e Arquivos durante 30 anos. Cheguei a chumbar na escola porque não estudava: estava demasiado ocupado a ler.
Difícil é responder à vossa pergunta acerca de autores de referência…são tantos, e de estilos tão diferentes! Digamos que nos últimos anos consagro mais atenção ao romance histórico, que adoro. Se tiver de citar meia dúzia de autores de eleição, vou mais para as obras completas de:  Harold Robbins, Sven Hassel,  Colleen Mc Cullough, Bernard Cornwel,  Erle Stanley Gardner ou Rex Stout. Isto no campo da literatura, e claro, muito longe de esgotar as minhas preferências. Deixei de fora, injustamente, dezenas de autores que adoro, como por exemplo o livro “o regresso” da Vitória Hislop. Na poesia Florbela Espanca, António Nobre, Soares de Passos, ou Sophia de Mello Breyner, entre outros. 
Curiosamente não me é difícil eleger o maior autor do mundo: no meio dos milhares de obras lidas, escolho sem hesitar Xogum de James Clavell, como o melhor livro que já li na vida! Leio-o uma vez por ano, de há cerca de 20 anos para cá: já sei de cor longas passagens do livro. E ainda não perdeu a magia. James Clavell  é o escritor cujo talento invejo e  adoraria ter.

HT: Para terminar, já está a trabalhar num novo livro? Se sim, pode levantar-nos a pontinha do véu?
Carlos da Fonseca: Estou sim. Este novo romance passa-se na Guerra Colonial, no teatro de operações da Guiné. Descreve a vida, as emoções e os sentimentos de um jovem militar em campanha. Apesar de ultimamente muito batido o tema, não o considero totalmente esgotado ainda. Geralmente as muitas obras que tenho lido sobre o assunto debruçam-se sobre operações ocorridas, sobre emboscadas e ataques, quase sempre relacionadas com tropas especiais, fuzileiros, comandos ou paraquedistas. Não encontro quase nada sobre a vulgar tropa-macaca, como eram apelidados na altura os da infantaria. Os pensamentos, receios e anseios dos jovens anónimos que cumpriram serviço militar nos aquartelamentos de quadrícula. É essa lacuna que procuro preencher.
Entretanto, e entre as duas obras, estou a terminar uma peça de teatro infantil. A seguir ainda não sei bem. Por um lado desejava voltar a pegar no rascunho do livro que engavetei aos 20 anos e escrever agora o tal romance histórico sobre a romanização da península. Por outro lado tenho sofrido pressões familiares para dar continuação a Anatomia de um amor…
Embora não aprecie por aí além as sequelas e sagas, e goste de mudar de tema em cada livro, confesso que tenho algum material para compor uma espécie de continuação…elementos e sensações que não tive ocasião de utilizar no Anatomia. Veremos na altura. Talvez que as próprias reacções do público ao que vou escrevendo me dêem uma pista sobre o que escrever primeiro.
Como escritor neófito, estou a descobrir-me a mim mesmo ainda. Pelo aprendi acerca de mim que gosto de utilizar um estilo literário focado nos sentimentos profundos das pessoas, expor e explorar o porque das reacções e actos. Isso faz de mim um neo-realista do século 21? Ou um romântico realista? Sinceramente nem sei ainda enquadrar a minha escrita e também não me preocupo por aí além com esse debate: sou novo demais no mundo da literatura para almejar atingir correntes literárias. E ainda por cima bastante independente e avesso a pertencer a grupos. O futuro o dirá.

1 comentário:

Mary disse...

Parabéns, está magnífico

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