quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Entrevista ao Dr. Mário Cordeiro

quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Esta semana entrevistei aquele que é um dos mais prestigiados pediatras nacionais, o Dr. Mário Cordeiro, que acabou de lançar o livro "Educar Com Amor".
Muito Obrigada ao Dr. Mário Cordeiro pela entrevista e à Cláudia Silveira da Esfera dos Livros pela logística neste processo.

HT: O Dr. Mário Cordeiro é, sem sombra de dúvida, um dos mais prestigiados pediatras nacionais. O que o levou a seguir pediatria?
Dr. Mário Cordeiro: Segui pediatria de uma forma quase natural. Sendo filho de um pediatra, habituei-me a seguir o acompanhamento que o meu pai fazia aos clientes, designadamente ao telefone e em visitas domiciliárias, já que, naqueles tempos, não havia mails nem telemóveis, nem serviços de urgência para crianças. Por outro lado, sou de uma família numerosa e comecei a ter sobrinhos quando tinha dez anos. Depois, porque aprendi que contactar com as crianças era um desafio intelectualmente estimulante, em termos de medicina, e também me ajudava a rejuvenescer e, quiçá, a compreender a minha própria infância, para lá de, na altura em que escolhi, as crianças ainda terem poucos direitos e serem muito menorizadas, sendo uma população com muitas doenças e alta mortalidade. Isto felizmente mudou.

HT:  Ainda se lembra como e quando é que decidiu transmitir o seu conhecimento através dos livros?
Dr. Mário Cordeiro: Sempre gostei de escrever – desde a escola, em que tinha um jornal -, e o jornalismo era uma profissão que eu ambicionava – a questão é que não estava organizada da forma como depois veio a estar. Comecei a escrever poesia aos dez anos (ainda escrevo, e cada vez mais, tendo 3 livros publicados) e ficção (também já tenho vários romances publicados e outros à espera da altura certa. No que toca aos livros “para pais e educadores” foi porque considerei – desde o momento em que comecei a escrever para a Pais&Filhos, desde o seu primeiro número, que a linguagem médica era – como por vezes continuar a ser – demasiado cifrada e centrada na parte biomédica da medicina, esquecendo a parte relacional, psicológica, social e até antropológica. A atitude do meu pai influenciou-me, apesar de ele ter morrido quando eu era ainda muito novo, porque foi um dos fundadores da Pediatria Social, tendo eu também seguido essa área.

HT: Além dos livros cujo publico alvo são os pais e educadores, sei que tem também um romance editado, “A Praça”. Como surgiu a ideia deste romance?
Dr. Mário Cordeiro: Gosto de observar, de contemplar, de ver. E gosto de tentar entender os comportamentos humanos. A “Praça”, a que se refere (tal como “Jogos de Verão” ou “Redemoinho”) são quase peças teatrais em que as personagens interagem e deixam sempre algo de misterioso nas relações. Já escrevi duas peças de teatro (uma delas, para meu orgulho, foi representada no CCB) e tenho alguns romances à espera. O próximo sairá ainda este ano. Realço ter tido a honra de editar a única Antologia de poesia sobre o Nascimento, há cerca de dez anos, a nível mundial, com 150 autores lusófonos.

HT: Acaba de publicar o livro “Educar com Amor”. O que significa para si educar com amor?
Dr. Mário Cordeiro: Quase uma redundância porque não há uma coisa sem a outra, mas é bom que se sublinhe que amar os nossos filhos é educa-los, no sentido de aprender e ensinar, numa relação recíproca. Seria mais fácil deixar as crianças crescer “selvagens”, mas ao contrário do que escreveu Rousseau, não se tornariam em boas pessoas. O ser humano, se “deixado à solta”, pode libertar a sua parte má, egocêntrica e omnipotente, e a imposição de limites e o saber lidar bem com a frustração. Uma atitude tranquila perante os desafios da vida, com ousadia mas com assertividade, é essencial para termos gerações cada vez mais saudáveis, do ponto de vista mas também do psicológico e social.

HT: Para terminar, quer explicar-nos o que é uma criança feliz?
Dr. Mário Cordeiro: Não sei se as pessoas são felizes. Ou até se o devem ser, no sentido em que é bom termos todos os sentimentos, designadamente momentos de felicidade e outros de maior instabilidade e até tristeza. A tristeza (não a depressão!) que corresponde ao inconformismo e ao sentir-se que “não se está inteiramente bem”, é que gera impulsos criativos, de melhoria e de tentar modificar as coisas. Não haveria arte, pintura, música, literatura, poesia, sem momentos de nostalgia criadora. Agora, outra coisa é sofrimento, depressão, angústia… para esta, já basta a angústia existencial inerente a qualquer ser humano (mais nuns do que nos outros), e esta “injustiça cósmica” de termos tanto e tanto a fazer e a descobrir, e a nossa vida resumir-se a um oitavo da de um saco de plástico. Mas é com isso que temos de viver, de onde aproveitar os momentos e não desperdiçar tempo com pessoas e situações que não interessam a ninguém. “Par des délicatesses j´ai perdu ma vie”, escreveu Rimbaud. Não podemos perder a vida por cerimónias e fretes a quem não os mereça – é uma coisa a ensinar aos nossos filhos. Que sejam dignos, honestos, frugais, solidários, com sentido de humor, sensíveis e com uma visão da vida tranquila e bem vivida.

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